





Aqui estou eu de volta a este país onde estive durante 1 ano em 2008. Parece estar agora a reentrar numa 'bolha' do passado. Sinto-o pelas casas que passam ao longo da viagem de comboio, pelo céu cinzento e pesado, pela língua inglesa e pelas pequenas reacções das pessoas. Essa bolha é a 'bolha de Durham'!
Não é fácil deixar o nosso país (que no meu caso é soalheiro, tranquilo e relaxado) a família (ainda para mais em periodo de férias com todos os confortos e alegrias) e os amigos (que nem tive tempo de me despedir convenientemente...sorry!) e partir para o desconhecido (frio, cinzento, chuvoso, pouco amigável..como se vê pela foto)
O dia de chegada ontem foi duro que perdurou durante uma longa jornada: começou às 7h30 na Manta Rota, numa pilha de ansiedade que me retirou da cama à força, arrumando, comendo e despedindo da família com o coração cheio de emoção e comoção. Antes do aeroporto ainda houve tempo (e necessidade) de passar pelo mercado da Manta Rota para bolinhos algarvios, despedir interiormente daqueles rostos e expressões tão portuguesas, que naquele momento deixaram em mim um carinho e uma nostalgia tão forte. Depois passar pela CGD de Tavira e finalmente rumar ao aeroporto.
Aeroportos... já estou habituado a despedidas mas não há hábito que reduza as emoções que a separação física gera. Deixar os meus pais para trás nestes momentos é difícil. Creio que seja pelo facto de que no momento de partida, o que há de bom nas relações fica fortalecido e saliente. Ontem claramente senti a ligação forte que existe entre os meus pais e eu e vice-versa. Que alegria!
Foi com essa alegria e com a alegria que Maria me inspirou que dei o último adeus (já a 50m de distância, depois do controlo de segurança!).
The weather...
Outro processo que custa para quem emigra do sul para o norte é a transição do clima. Deixar o Algarve, o mar, a praia, calor é sempre triste, quanto mais se for para vir para este clima. Mal passei o Canal da Mancha vi logo que o clima estava mal, quando começamos a aterrar sente-se quão espessa é a camada de nuvens. Antes de passá-la despedi-me do sol e bebi os últimos raios, já a prever que não o ia voltar a ver como dantes em Portugal.
Passadas as nuvens uma reacção de tristeza e desilusão geral no voo (90% dos passageiros ingleses): "OOOOOHHH..." O tempo está cinzento, chuvoso, escuro e invernoso.
Adeus sol de Portugal.
Ao menos para aliviar o clima vem uma piada (British humour) do capitão: Welcome back to England (seguido de um "Baaaahh..!), the weather is probably not as you expected...(gargalhada geral!)
Jornada longa:
Aeroporto: a visão do aeroporto fez-me perceber a rapariga que em Faro dizia, "why are there so many people queueing for this flight?! WHO THE HELL GOES TO BOURNEMOUTH!!? NOBODY LIVES THERE!! Um conjunto de pavilhões provisórios fazem daquilo um aeroporto.
Do aeroporto para Bournemouth, de lá para Southampton e de lá para Brighton. WELCOME TO BRIGHTON. 3h20 de viagem cheio de pena de ter saído de Portugal e desejando profundamente um lugar para pousar tudo e descansar.
Antes de chegar a casa, ainda foi necessário apanhar outro comboio subir ao campus da universidade, pegar na chave e no material para cama, voltar a descer tudo, debaixo de chuva e a transpirar por todos os lados e finalmente ir para 'casa'.
Finalmente a residência!
Os quartos das residências paracem sempre frios e pouco humanizados. Ora, isto é óbvio de sentir quando se deixa uma casa habitada por uma família, com alegria e muita vivência anterior. Acredito que as casas e os lugares onde se vive transmitem tanto mais "energia positiva" quanto mais estes tiverem marcas claras de vida em alegria e paz de outros que por ali passaram.
Ontem o quarto pareceu-me frio e solitário. Hoje já me sinto mais em casa aqui..! Lembro-me que quando deixei Durham, senti pena de deixar o quarto... ´
Domingo, primeiro dia em Brighton, dia do Senhor
No meio de tantas bênçãos e graças que tenho tido esta foi mais uma delas: começar este ano novo num domingo, dia do Senhor.
Vendo mar pela janela, ainda sentado na cama, enfrento este primeiro dia. Pela chuva vou pela cidade fora que ainda acorda. Sinto falta de relação com outras pessoas. Converso e caminho um pouco com uma pobre old lady inglesa que mete conversa comigo. Puxo pela conversa o máximo que consigo para evitar a solidão. É incrível que destas pequenas conversas, surge logo uma paz e um bem-estar que fortalecem durante umas boas horas...
Brighton é uma cidade 'à beira mar estendida' (mais até do que Lisboa, que no seu caso é à beira-rio), cosmopolita, jovem, descontraída. Vêem-se várias pessoas a correr à beira-mar, famílias com muitas crianças, gente que circula pela cidade, a pé, de bicicleta, de bus ou de carro. A cidade tem vida, história, alegria, tolerância e unidade. Aqui não sinto o 'cada um por si' de Londres ou o 'estrangeiro: não és ninguém nesta terra' de Durham. Sinto-me a apreender a cidade e a começar a fazer parte dela. Já começo a orientar-me, a saber os nomes das ruas e os caminhos para alguns lugares.
Depois de uma caminhada de 1h30 até à igreja St. Joseph, ao entrar na igreja sou logo convidado pela Norry a vir até ao salão da paróquia para tomar chá e biscuitos (so English:D) e conviver com a comunidade paroquial. Senti-me mesmo pegado pela mão por Jesus e levado à paz do Seu coração. Bendito seja o Coração de Jesus que revelou a Sua hospitalidade pela hospitalidade daquela gente.
Talvez não se pense nos ingleses como povo hospitaleiro, porém hoje tive uma demonstração que aqueles fazem alguma diferença. Creio mesmo que os ingleses católicos quebram alguns estereótipos de frieza e individualismo que os ingleses têm. No chá conheci as primeiras pessoas da cidade: uma familia franco-hungara com 4 filhos, o padre Patrick O'Beirne (com quem jantei há pouco) que não sendo o pároco celebrou a missa, um advogado casado com uma inglesa budista, e o seu filho de 8 anos Joe; a Norry, uma senhora muito simpática e preocupada comigo nos seus 60 já um pouco debilitada mas que é a responsável pelo acolhimento e chá, entre outros.
A missa foi mesmo especial. A minha alma estava mesmo sequiosa do Senhor. Os cânticos, a alegria da assembleia em estar ali, a atenção com que seguiam a eucaristia. Estava a chover a potes e a igreja estava praticamente cheia. Os ingleses católicos parecem-me ser bastantes fieis e sinceros na sua relação com o Senhor. Depois da missa há sempre um tempo prolongado de convívio. Não querendo ficar sozinho para o almoço de domingo, enchi-me de lata e fui pedir ao padre se podia almoçar com alguem que ele conhecesse para não ficar sozinho. Ele não conhecia ninguem mas convidou-me logo para jantar. Entretanto vou à ministra de comunhão, Haisel, (com um ar muito simpatico) e faço a mesma pergunta: e esta encaminha-me para a jovem italiana Maria e o namorado mexicano Yari. Curioso que mal a Haisel sai à procura dela, ela entra ao encontro da Haisel. O Espírito Santo que nos guia!
Vamos almoçar com eles e com o pai da Maria que só falava italiano ao Bills: um restaurante alternativo, com comida orgãnica e com um aspecto muito mediterrânico. Senti-me bem lá, pela companhia, pela simpatia dos que me serviam e dos que me acolhiam e pela disposição colorida e saúdavel do restaurante. Fiquei mesmo contente de poder ter estado com eles hoje. Bendito seja Deus pela hospitalidade e disponibilidade daquele casal.
Depois de almoço é tempo de tratar de me instalar: Cartão de telemovel inglês, internet no quarto, curso amanhã, horas, local... Ao fim da tarde (às 6h) aproveito para ir à missa novamente, desta vez a 3 min a pé de casa. A igreja de Santa Maria Madalena. No final não houve missa, mas tive a oportunidade de ter algum silêncio e oração diante do Senhor. Que bom que é viver tão perto do mar, de uma igreja e numa zona tão sossegada! Ainda deu para conhecer o Mike (senhor velhinho irlandês, meio-surdo, que toma conta da igreja) e a Alexia, da Eslováquia, mas que aqui vive há 13 anos.
Aproveito depois para ir tocar no mar. Sentir este mar, esta areia, o cheiro, o lugar. O mar é sempre o mar e este cheira mesmo a mar. Daqui a uns bons meses (no próximo Verão) vou gostar de mergulhar lá!
Entretanto chega a hora de jantar (19h). Vou jantar com o padre Patrick, que não se esqueceu do convite. Vamos até a um restaurante indiano e temos uma longa conversa sobre vários aspectos da vida dele e da minha. O padre Patrick revela-me visões da igreja e do Papa e aspectos da vida dele que me surpreendem muito profundamente. Vejo claramente que não se revê no actual Papa e que desconsidera quase por regra aquilo que ele pensa ou escreve.
Claramente, é muito necessário rezar por este sacerdote. O jantar foi oferecido, e muito contente com esta prenda, despeço-me deste amigo que fiz e volto para casa.
Estes foram os 2 primeiros dias...
A descrição é longa e detalhada, mas é assim que os meus olhos e a minha alma se debruçam sobre o mundo: atentos, pensativos, observadores, registadores.
Faz-me bem escrever assim...
Em paz e ao som de uma chuva torrencial, termino este dia abençoado.